Educação Sexual, quando conversar sobre esse assunto com crianças e adolescentes?

Educação Sexual, quando conversar sobre esse assunto com crianças e adolescentes?

Confira abaixo a entrevista do Padre Rinaldo  no Jornal Expressão (edição: Janeiro de 2012)

A educação sexual é uma questão delicada e muito séria. Há muitas opiniões sobre a forma de abordar o tema. Parte integrante da formação do ser humano, é imprescindível que seja tratada de forma adequada, dando explicações respeitando a faixa etária. Padre Rinaldo Roberto de Rezende, cura da Catedral de São Dimas e professor de Ética no Curso de Teologia, concedeu entrevista sobre Educação Sexual ao Jornal O Vale, em dezembro, e aqui reproduzimos na íntegra.


- Educação sexual é um assunto que deve ser tratado em sala de aula para jovens de 13 e 14 anos?

Pe. Rinaldo - Educação sexual é um tema a ser tratado em todas as idades, com assuntos e argumentos conforme a idade. Entendemos como sexualidade o todo da pessoa e não só a genitalidade. Um menino não é um mini-adulto e nem a menina, uma mini-mulher. São seres se amadurecendo, também na sexualidade. Os temas não podem ser simplesmente apresentados. Antes de tudo tem que se analisar a realidade com a qual trabalhamos, a maturidade dos que irão ouvir as explanações e, antes ainda, a preparação e experiência dos que ministrarão tais assuntos.

- A Secretaria de Educação de São José tem um projeto de educação sexual para essa faixa etária. Entre as informações passadas aos jovens estão dicas de contracepção, falando do uso de preservativos. O que o senhor acha dessa proposta?

Pe. Rinaldo - Em termos de fé cristã católica, a sede própria da relação sexual é o matrimônio. Portanto, só na vida conjugal se pensa em planejamento familiar, paternidade e maternidade responsáveis. Porém, em se tratando do pluralismo religioso e cultural  presente em nossa sociedade, podemos dar referências do que existe por aí, não colocando como ideal de vida, nem de conduta. Toda criança deveria ter o direito de  nascer no seio de uma família. Sabemos o quanto importam para o humano as referências às suas raízes, o ter pai e mãe, o ter um berço, um lar. Em nome do prazer, não podemos negar a finalidade primeira da sexualidade, o procriar. A própria natureza nos ensina isso. Os animais nascem pré-programados. O ser humano, por sua vez, nasce pré-maturo. Precisa amadurecer também a questão sexual.  A relação não é simplesmente uma brincadeira, uma forma de puro prazer ou descoberta. Ela forma o humano, é parte que integra a pessoa. Se não for bem vivida, desintregra e degrada o humano. A sociedade está aí para nos mostrar na prática o que digo acima.

Atualmente alguns jovens m famílias desestruturadas e muitos convivem com adolescentes grávidas e jovens com vida sexual ativa. Muitos pensam que um projeto como esse citado pode ser uma forma de levar informação científica, sem preconceitos ou moralismo, para conscientizar os jovens das responsabilidades que a sexualidade traz, como gravidez na adolescência, higiene e doenças sexualmente transmissíveis. Nesse contexto, as aulas não seriam uma medida correta de prevenção?

Pe. Rinaldo – A partir do já citado, todo esclarecimento, orientação adequada, podem servir e muito. Não podemos é considerar o humano só em parte. A sexualidade humana faz parte de um todo que é corpo, psique, espírito, razão, afeto, alteridade, diferença e identidade. Se o todo não for considerado, desqualificaremos o humano. Não podemos atacar os efeitos, temos que ir às causas. O que  gera todo esse retrocesso na vida sexual? A que e aonde queremos chegar? Qual o ideal de vida, de família, de formação propomos? Que ser humano queremos ajudar a formar?
- O que fazer para evitar o crescimento do número de adolescentes grávidas? O sexo está banalizado? As relações entre as pessoas também?

Pe. RinaldoO sexo é tratado como um departamento à parte no ser humano. Ora, ele interfere no todo. A sexualidade exige ascese, e até diria, sublimação para o crescimento. Tem a hora certa, a pessoa certa, o modo certo, a expressão mais pura e bela do amor. Para nós cristãos católicos, amor, sexo e fecundidade não podem estar desligados. A gravidez na adolescência, sempre em crescente número, expressa o quanto temos errado no tratar a sexualidade como algo banal. Nossas crianças e adolescentes são incentivados a uma precocidade de experiências, perdendo a pureza, a infância, uma fase mais lúdica da vida. Disse que somos pré-maturos, em tudo temos que crescer. Hoje vemos isso sendo desrespeitado sempre mais. Vemos pessoas expostas a cenas insinuantes, eróticas e por vezes, pornográficas, nos horários de programação infantil. O que esperamos com tanto incentivo à prática sexual? Entender-se como gente, como  pessoa, no respeito ao outro, formar-se para as relações, isto sim é urgente e necessário.

- Qual a posição da Igreja Católica para a educação sexual?
Pe. Rinaldo - A Igreja propõe, ant
es de tudo, uma educação para os afetos. Saber ser pai, mãe, filho e filha, irmão e irmã, amigo, colega. Temos que nos formar para o namoro, para a amizade, para a fraternidade, para a maternidade, para a paternidade, para a filiação. Vivemos um tempo de aridez nos relacionamentos, tempo de indiferença quanto ao semelhante (basta ver como somos tratados no sistema público de saúde, com raras exceções), tempo de anonimato e individualismo. Precisamos nos formar para os afetos e para as relações mais amplas. A educação sexual virá por tabela. Temos que aprender a conjugar hormônios e neurônios. Penso que a Igreja parte da natureza para chegar ao que é plenamente humano. Tudo na natureza tem uma finalidade muito clara. Quando desvirtuamos o que  a natureza rege, pagamos as consequências.

Um comentário

  1. Gostei muito deste artigo. Tenho filhas de 18, 16 e filho de 14 anos. Desde a infância busco “palavras e formas” para abordar este assunto com eles, e comecei desde a infância. Eu já havia lido este artigo no JornaL Expressão, comentei em casa, as palavras são claras, objetivas, e à luz de Deus. Se lermos com atenção não vamos passar por “saias justas” quer nas conversas com outros pais ou educadores, ou dentro de nossa própria casa. Que mais pessoas pudessem ouvir e aprender com este artigo”.

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