CULTIVAR A TOLERÂNCIA À LUZ DO EVANGELHO

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

Sb 12,13.16-19 | Sl 85(86) | Rm 8,26-27 | Mt 13,24-43

                         O livro da Sabedoria professa a grandeza de Deus enquanto justo, indulgente e clemente. O Salmo 85 confirma esta profissão: “Sois clemente e fiel, sois amor, paciência e perdão”. Para São Tomás de Aquino, o poder de Deus é revelado justamente em sua misericórdia 1.

                  Com a parábola do trigo e do joio, Jesus afirma sua fé em Deus na mesma perspectiva que o livro da Sabedoria. A vida em sua complexidade, marcada pelo pecado e mais ainda pela graça divina, vislumbra o desenvolvimento tanto do trigo quanto do joio, tanto do bem quanto do mal. O Pai revelado por Jesus não tapa os olhos diante do mal que está em curso, no entanto, vê mais longe e enxerga com mais profundidade. Nós, ao contrário, marcados pelo imediatismo, sobretudo nos últimos tempos, tendemos a propor e executar “soluções” imprudentes, frutos de uma impaciência um tanto compreensível, mas muitas vezes equivocadas. Deixamo-nos arrastar pelo “eliminar”, todavia, expressões tais como “bandido bom é bandido morto” e “tem que matar no ninho” não deveriam ser pronunciadas por cristãos. As soluções fáceis nem sempre são as mais corretas, tampouco resolvem nossos problemas. Que triste se eliminarmos trigo convictos de estarmos eliminando joio. No entanto, infelizmente, intolerâncias geradas de um fanatismo doentio continuam a caçar e condenar à fogueira as “bruxas” hodiernas… Isto não é Evangelho!

                     Admitir a coexistência do joio não seria, então, uma espécie de conivência com o mal? Jamais! Se assim entendermos, estaremos deturpando a mensagem do Cristo e admitindo um Deus que não faz justiça aos injustiçados, logo, desprovido de misericórdia. Da parte de Deus, Jesus deixa claro que haverá um tempo propício para um “acerto de contas” – “o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal” –, isento de nossas imprudências e limites. Da nossa parte, há que investirmos na qualidade do trigo: quanto mais o trigo é viçoso, menos daninho será o joio. “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21).
Sejamos sinceros: às vezes o bem parece impotente diante do mal, parece até que ele não compensa. As outras duas parábolas que Jesus conta no evangelho desta liturgia nos ajudam na compreensão: o Reino dos Céus é como uma semente de mostarda e como o fermento na massa que, aparentemente insignificantes, fazem a diferença no “produto final”. O Reino dos Céus é assim, acontece quando gestos carregados de bondade e verdade, ainda que insignificantes à primeira vista, transformam o coração das pessoas e os ambientes ao redor, causando uma verdadeira revolução silenciosa. A prática do bem faz a diferença, mesmo num mundo onde o mal parece dominar. Quando formos tentados a deixar de fazer o bem, lembremos que o nosso foco não está nos grandes resultados, como no mundo business, mas na fidelidade àquilo em que acreditamos. Além disso, São Paulo nos exorta que “o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza”.

                             A não eliminação do joio não significa a falta de um discernimento sobre aquilo que é bom ou ruim, sobre o que faz bem e o que faz mal, muito pelo contrário. Mas também não quer dizer que iremos separar o mundo, de modo maniqueísta, entre os bons e os ruins. A tensão trigo-joio é também um processo interior, ambos crescem nos campos do nosso coração. Os que se decepcionam com o Cristo tolerante não podem se esquecer que o que julgamos nos outros pode estar profundamente enraizado em nosso coração, enfraquecendo nossa capacidade de dar o melhor de nós. Reza o salmista: “se levardes em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir?” (Sl 129(130)).

                                                                                                                PE. ÉVERTON MACHADO DOS SANTOS
Vigário da Paróquia São Dimas

                           Ó Pai, que sois clemente e fiel, amor, paciência e perdão, ajudai-nos a entrar na dinâmica do Evangelho revelado por Jesus, que prega a tolerância que nos faz apontar menos o dedo e estender mais a mão, e que nos inspira a perseverar na prática do bem. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

1 “É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (STh II-II, q. 30, a. 4).

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