XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A Ex 19,2-6a | Sl 99(100) | Rm 5,6-11 | Mt 9,36–10,8

IGREJA, POVO DE DEUS CHAMADO AO ENCONTRO COM CRISTO PARA IR AO ENCONTRO DOS QUE SOFREM

    Jesus peregrino, que sai ao encontro das pessoas, percebe a grande carência existente, elas se encontram abandonadas. Ele é tomado de compaixão porque as multidões “estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. Algo precisava ser feito, “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Então, Jesus vislumbra a convocação de um novo Israel, de um novo povo sacerdotal, tal como expresso no livro do Êxodo, que pudesse atuar no pastoreio de tantos que se encontram à deriva. Acontece, assim, a convocação dos Doze, chamados pelo nome não para constituírem uma elite de privilegiados, mas para serem enviados àqueles que caminhavam sem pastor.

    Numa concepção geral, sacerdote é aquele que realiza certa mediação entre o divino e o humano. Os doze apóstolos são constituídos fundamento de uma mediação querida por Jesus, não porque Deus seja distante e precise, necessariamente, de mediadores, mas, justamente ao contrário, porque seus cuidados tornam-se concretos no próximo que estende a mão. Por isso, Jesus chama para enviar, concede uma graça especial – “deu-lhes poder” – não para proveito próprio, mas para colocá-la a serviço dos outros. A missão comporta em primeiro lugar o anúncio de que “o Reino dos Céus está próximo”, anúncio que encerra não tanto um discurso sobre o amor de Deus quanto gestos de libertação que o demonstram na prática: cura dos doentes, ressurreição dos mortos, purificação dos leprosos e expulsão dos demônios.

      Ensina o catecismo que todos nós, pelo Batismo, participamos do sacerdócio de Cristo (CEC 1241.1268). Todos, apesar de nossas fraquezas, podemos ser mediadores do amor de Deus. Há quem nos questione: “será que não estamos de novo diante de homens e mulheres ‘enfermos’ que precisam ser curados, ‘mortos’ que precisam ser ressuscitados, ‘possessos’ que esperam ser libertados de tantos demônios que os impedem de viver como seres humanos?” (José Antonio Pagola). E se a convocação dos Doze significar a nossa convocação? Afinal, não somos uma Igreja apostólica? A missão deles ontem é nossa missão hoje!

     “Curai os doentes”. Quantas pessoas adoecidas ao nosso redor, vendo suas vidas se esvaírem pouco a pouco, tomadas pelo sofrimento. E se nós escolhêssemos cuidar mais, ter mais paciência, permanecer junto ao menos para fazer companhia? Contribuir com um remédio, com uma ajuda para tomar banho ou qualquer outro tipo de ajuda? Sem contar a grande quantidade de pessoas que padecem por falta de gestão na saúde pública.

     “Ressuscitai os mortos”. Quantas pessoas cuja esperança está morta, não enxergam mais possibilidades de “saída”, casamentos falidos, relações destruídas, vícios implacáveis… E se contribuíssemos para que pudessem enxergar algum caminho alternativo, que pudessem se reencontrar com Deus, fonte de esperança, e despertar a vontade de lutar pela vida, redescobrindo um novo sentido para ela?

      “Purificai os leprosos”. Quantas pessoas precisando de uma verdadeira limpeza numa sociedade cada vez mais maculada por tanta mentira, tanta corrupção, deixando que o seu verdadeiro eu seja deteriorado. E se as ajudássemos a compreender que a verdade compensa mais, que a honestidade causa paz no coração, algo que nenhuma quantidade de dinheiro seria capaz de garantir?

      “Expulsai os demônios”. Quantas pessoas precisando de exorcismo. Não estes espetáculos midiáticos que nada tem a ver com o Evangelho, mas do exorcismo que liberta da escravidão de ídolos como o consumismo, o hedonismo, o individualismo, as ideologias de todos os matizes. E se fôssemos desencadeadores de um processo de libertação que começa pela conscientização?

      Certamente não somos capazes de resolver todos os problemas nossos, das pessoas com quem convivemos e muito menos os problemas do mundo. Mas não estaríamos sendo fermento na massa (cf. Mt 13,33) se nos dedicássemos àquilo que podemos fazer, ainda que talvez pouco? Não estaríamos dando continuidade à missão de Jesus? O importante é não nos acostumarmos com o “sofrimento dos inocentes” – como sugere Johann Baptist Metz – que, se negligenciado, descaracteriza qualquer causa, inclusive, a causa do Evangelho. Recorda-nos novamente Pagola: “Quando se esquece o sofrimento concreto das pessoas, a humanidade corre perigo. Quando a política utiliza o sofrimento humano como estratégia, degrada sua própria causa. Quando a religião vive de costas para os que padecem, ela se desumaniza. Quando a Igreja não se aproxima deles, ela se afasta do Crucificado”.

      Que sejamos todos mediadores do Deus da salvação e da reconciliação, lembrado por Paulo na Carta aos Romanos, cuja “bondade perdura para sempre” e cujo “amor é fiel eternamente”. Que Ele nos ajude a ouvir a sua voz que clama no grito dos inocentes e que não falte da nossa parte, além do trabalho, a oração em favor da messe, como nos exorta o próprio Jesus: “Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”

PE. ÉVERTON MACHADO DOS SANTOS

Vigário da Paróquia São Dimas

Ó Cristo, pelo Batismo, vós nos chamastes pelo nome e nos associastes ao seu sacerdócio para sairmos ao encontro dos que sofrem, cansados e abatidos como ovelhas sem pastor. Dai-nos a graça do Espírito para que, de fato, a nossa presença entre eles seja sinal do vosso Reino que se aproxima. Vós que viveis e reinais com o Pai, na unidade do Espírito Santo.

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